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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

A triste realidade: Piscicultores amargam perda milionário com queda na produção no Castanhão e Orós

Os projetos produtivos de criação de tilápias de forma intensiva em tanques-rede instalados em açudes do sertão cearense, que trouxeram melhoria significativa para a vida de muitas famílias, estão em decadência. Motivo: o baixo volume de água nos reservatórios e a mortandade dos peixes. A consequência: queda de produção, desemprego e perda de renda mensal.

Nos dois maiores açudes públicos do Ceará – Castanhão e Orós – a atividade está praticamente chegando ao fim. Nos médios e pequenos reservatórios já houve suspensão dos criatórios. O período que se avizinha, a Quaresma (40 dias após o Carnaval) e a Semana Santa, é propício para o crescimento da demanda por pescado, mas o Estado já não tem oferta suficiente para o consumo atual, e o peixe começa a ser importado da Bahia.

O Ceará passou de segundo maior produtor de tilápia do Brasil para a 20ª colocação, entre 2013 e 2017, segundo dados da Associação dos Piscicultores do Ceará. O setor já movimentou a economia regional, gerando milhares de empregos, em particular nos dois maiores polos, os açudes Castanhão e Orós.

Os primeiros projetos foram implantados em 2004, no Orós, que chegou a produzir 400 toneladas de pescado por mês e atender 700 famílias, nos municípios de Orós e Quixelô. Hoje, produz só 15 toneladas, e conta apenas com 15 famílias que ainda insistem em manter a atividade. O volume atual do Orós é de 5,3%, o menor índice de sua história. No Castanhão, o maior açude do Ceará, o volume de apenas 3,60% inviabiliza a continuidade dos projetos de piscicultura. Recentemente, foi registrado mais um episódio de mortandade de tilápia em tanques-rede.

Segundo dados atualizados da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Aquicultura e Pesca de Jaguaribara, houve perda de mais de 50% da produção que estava nas gaiolas, equivalente a mais de 500 toneladas. A produção no Castanhão já atingiu no seu auge cerca de 1.500 toneladas de tilápia por mês. A atividade está em declínio. Em 2017, registrou queda de 90%, ou seja, o reservatório produziu apenas 150 toneladas por mês. Em 2018, houve uma retomada parcial e chegou-se a 300 toneladas, graças à recarga do açude no período chuvoso.

“A estratégia dos criadores é assegurar a produção máxima para vender na semana Santa, quando o preço do pescado melhora, mas com essa mortandade da semana passada, os prejuízos são enormes e ainda estão sendo calculados”, explicou a secretária de Desenvolvimento Econômico, Aquicultura e Pesca de Jaguaribara, Lívia Barreto.

Em Quixelô, na bacia do Açude Orós, a piscicultura em tanques-rede chegou ao fim. O mesmo ocorreu nos açudes Olho D’Água, em Várzea Alegre; Trussu, em Iguatu, e Cachoeira, em Aurora. No reservatório de Ubaldinho, na cidade do Cedro, a produção de tilápia em gaiolas está parcialmente paralisada.

“Estamos parados, sem trabalho, sem renda”, disse o produtor Luís Oliveira, na bacia do Açude Orós, no Município de Quixelô. “A nossa situação é de muita dificuldade, o sonho virou pesadelo e os projetos estão parados, sem água no açude”. Os piscicultores ficam tristes e centenas de famílias, sem renda.

No início, o projeto trouxe mudanças econômicas importantes. Os produtores substituíram antigas casas de taipa por alvenaria, adquiriram eletrodomésticos e veículos. Houve melhoria de qualidade de vida, mas a situação adversa retornou.

A água no Orós se distanciou mais de quatro quilômetros das áreas onde se produzia inicialmente. A atividade revela-se insustentável. Na região, um dos açudes que ainda mantém a atividade é o Rosário, em Lavras da Mangabeira. É uma exceção. Para se manter ativo, a quantidade de peixe em gaiolas foi reduzida pela metade, visando evitar episódios de mortandade. “Somos praticamente os últimos que estão produzindo”, disse o vice-presidente da Associação dos Aquicultores do Açude Rosário, José Valdo Pereira. “Com dificuldade, mas a gente vai ter peixe para a Semana Santa”.

O veterinário Paulo Landim, que acompanha desde o início os projetos de piscicultura em Orós, critica a falta de atenção dos governantes para com a atividade. “Além da escassez de chuva, houve retirada de água do Orós, sem nenhuma medida compensatória”, frisou. “Precisamos de um seguro para a atividade, como há para a agricultura, o seguro-safra”. O professor do curso de Biologia da Universidade Regional do Cariri, Hênio Nascimento de Melo Júnior, coordenador do laboratório de Limnologia e Aquicultura, acompanha nos últimos anos os casos de mortandade nos projetos de piscicultura intensiva. “É lamentável o que vem ocorrendo, falta informação sobre esse fenômeno natural”, pontuou. “No açude Rosário, estamos conseguindo evitar com a mudança de gaiolas a ocorrência de mortalidade”.

Mortandade

Hênio Melo Júnior entende que os episódios de mortandade de tilápia ocorridos nos projetos produtivos relacionam-se com a circulação vertical turbulenta da água, provocada por mudança de temperatura da água entre o dia e a noite. Abaixo das gaiolas, no fundo do açude, estão fezes dos peixes, restos de ração e de vegetação que liberam gases tóxicos e retiram oxigênio da água. “A força motriz do problema é a alteração da temperatura, os ventos fortes, que movimentam a água e creio que os peixes morrem intoxicados”, explicou Melo Júnior. “A água no açude se movimenta e sedimentos e componentes tóxicos se misturam alcançando as gaiolas”.

O Governo do Estado extinguiu recentemente a Secretaria de Aquicultura e Pesca e as atividades da Pasta, segundo a assessoria de imprensa, ainda estão sendo definidas.

Fonte: Diário do Nordeste

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