}); PORTAL ORÓS: Morte de Padre Cícero completa 85 anos com homenagens de fé

sábado, 20 de julho de 2019

Morte de Padre Cícero completa 85 anos com homenagens de fé



Os moradores de Juazeiro do Norte acordaram no dia 20 de julho de 1934 com a notícia da morte de Cícero Romão Batista, o famoso Padre Cícero, sacerdote, líder e fundador do Município, aos 90 anos. Acometido por uma crise intestinal, o pároco havia recebido os primeiros cuidados médicos dois dias antes, uma quarta-feira, em sua casa, na Rua São José, no Centro. Na quinta, o quadro de saúde piorou e o diagnóstico foi mais grave: obstrução intestinal e insuficiência cardiorrenal. Hoje, completam-se 85 anos da partida do aclamado "Patriarca do Nordeste".

O legado do Padre Cícero é imensurável. Prova disso é que todo dia 20 de cada mês é motivo de orações e homenagens em Juazeiro do Norte. Fiéis vestem preto, de luto, para lembrar a data da morte do líder religioso. A celebração se intensifica neste dia 20 de julho, data exata da "viagem" do sacerdote - já que o romeiro acredita que ele não morreu. Ao longo do ano, estima-se que mais de 2 milhões de pessoas visitam a cidade pela fé nas graças do "Padrinho".

Quando a notícia da morte se espalhou, naquela sexta-feira triste, centenas de pessoas correram até sua casa para conferir. Segundo os memorialistas, para evitar qualquer dúvida, o caixão foi colocado na vertical, na janela, para que os moradores e romeiros pudessem ver. Relatos da época descrevem que, pela posição, o corpo se mexeu e alimentou o imaginário dos fiéis.

A professora e historiadora Amanda Teixeira, que pesquisou Juazeiro do Norte entre 1934 e 1969, conta que a repercussão da morte do pároco só foi chegar aos jornais de outras cidades e outros estados a partir do dia 21 de julho, em notas pequenas. Alguns jornais importantes, contudo, como o Diário de São Paulo, já apresentavam matérias grandes nas primeiras páginas. "São notas, porque tinham que dar a notícia rapidamente, mas, ao longo dos dias, jornalistas foram chegando para cobrir o funeral. Havia presença da imprensa nacional, fotógrafos, narrando como a população se comportou. A repercussão foi grande", completa.

"É que muitas pessoas o julgam santo e não acreditam na sua morte. Aqui era grande o número dos que mantinham essa convicção e que se aproximavam do corpo para vê-lo muito de perto, verificando então a verdade do fato. Dos que assim pensavam, alguns têm enlouquecido deante da realidade", narrou um correspondente do periódico A Noite, do Rio de Janeiro. De fato, alguns devotos acreditavam que, como era santo, o pároco era imortal.

A morte de Padre Cícero foi narrada de maneiras distintas por jornais brasileiros. "Eram representações distintas, de sujeitos distintos e com interesses distintos", afirma Amanda. Nos jornais do Sudeste, imaginavam que o "fanatismo" intensificaria, outros narram pessoas que enlouqueceram e desmaiavam como se a morte do sacerdote fosse o fim do mundo.

"Sabbado último, uma mulher, cujo nome a reportagem não conseguiu identificar, ateou fogo às vestes, utilizando-se de kerozene, para pôr termo à existência. Dizem que o gesto da tresloucada se prende à morte do Padre Cicero. Houve quem a ouvisse dizer que não queria viver sem o padre na terra. A capella do Perpetuo não comporta o número de visitantes, que é ininterruptamente considerável", impressionou os leitores no dia 3 de agosto de 1934 o jornal carioca "A Noite".

Legado

Nos jornais do Nordeste, entretanto, havia uma tentativa de mostrar que o Município era civilizado. Há descrições minuciosas nos periódicos locais falando quais autoridades estavam presentes no velório ou enviou representantes, que correu em ordem e que a Polícia esteve presente, mas não precisou conter ninguém. Estima-se que o cortejo fúnebre reuniu 40 mil pessoas. Após a morte do santo popular, muitos intelectuais, colunistas da imprensa nacional, romeiros e devotos especulavam o futuro de Juazeiro.

"Alguns articulistas acreditavam que aquela onda de fanatismo se encerrava ali", explica Amanda. A cidade era alvo de romarias desde o chamado "Milagre da Hóstia", em 1889, quando o pão consagrado supostamente se transformou em sangue na boca da beata Maria de Araújo, durante a celebração de uma missa pelo próprio sacerdote - fato que aconteceu outras dezenas de vezes, mesmo em comunhão por outros padres.

"As romarias que existiam para a visita ao chamado ´sangue precioso´ se transformaram em romarias de visitas ao Padre Cícero. As pessoas iam a Juazeiro para ver o padre para se aconselhar, pedir a bênção, conhecer aquele homem santo. Quando ele morreu, muitos acreditavam que as romarias iam desaparecer, que iam diminuir, que o ganho econômico em torno dos visitantes seria menor", completa a historiadora.

No entanto, aconteceu o contrário. As romarias continuaram, mas, dessa vez, para visitar o túmulo do sacerdote. Em novembro de 1934, já houve uma grande peregrinação no Dia de Finados - que depois se tornaria a maior romaria de Juazeiro do Norte. "Em 1950, esta já era uma romaria consolidada", diz Amanda. O que para a imprensa e muitos intelectuais seria um marco de ruptura, a "passagem" do Padre Cícero foi a continuidade e fortalecimento de todo o misticismo que o cerca.

Entre 1934 e 1940, o escultor italiano Agostinho Balmes Odísio inaugurou uma estátua do santo popular, no Largo da Capela do Socorro, em tamanho real, muito semelhante ao sacerdote e que impressionava os devotos. Até a inauguração da estátua na Colina do Horto, em 1969, este era o cartão-postal da cidade. "De certa forma, isso representa a permanência dele em Juazeiro. Era e ainda é uma estátua muito querida pelos romeiros. Recebia flores, orações, velas, promessas. E está no local onde ele passou a ´morar´. Ele continua vivendo na Capela do Socorro para os que acreditam", finaliza Amanda.

Fonte: Diário do Nordeste



Por Agência Miséria
Miséria.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário