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quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Mais da metade dos alunos da rede estadual têm problemas de sono

A rotina de Lívia Menezes, 16, começa às cinco da manhã, ao acordar, e só termina por volta das dez da noite, quando adormece. No intervalo entre uma ação e outra - e alguns ônibus depois entre Caucaia, onde mora, e Fortaleza, onde estuda -, passa mais de nove horas na escola. O cansaço desregula o dia a dia, problema que se repete para mais da metade dos estudantes entre 14 e 17 anos da rede pública estadual: cerca de 55% deles têm sono insuficiente, e 48% apresentam sonolência diurna excessiva (SDE).
Os dados resultaram de pesquisa do Laboratório de Sono e Ritmos Biológicos da Universidade Federal do Ceará (UFC), integrado ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas. O estudo, divulgado na última terça-feira (10), ouviu 11.525 estudantes do ensino médio de 123 escolas públicas de Fortaleza, durante o ano de 2015, a fim de diagnosticar quais fatores prejudicam o sono e o desempenho dos alunos.
Para Lívia, a "rotina de estudos cansativa" é o principal deles. "É comum eu dormir nas aulas prolongadas, mas reviso o conteúdo pelos slides que a professora passa. É cansativo, e ainda tem aula extra em alguns sábados", pontua.
De acordo com Felipe Alves, doutorando em Ciências Médicas e autor da dissertação que apresenta o estudo, o dado mais alarmante é o de adolescentes com baixa duração do sono. O problema é mais frequente entre matriculados em tempo integral: 70% deles afirmam dormir menos de oito horas por noite. Em seguida, vêm os de turno matutino (63%) e noturno (56%). Os menos afetados são os que estudam à tarde: 38,2% dormem menos que o ideal.
Os padrões se repetem quando os números se referem a estudantes que assumem ter SDE: entre os de escolas de tempo integral, a prevalência foi de 57,6%; do turno matutino, 46%; noturno, 40,8%; e, por último, os menos "sonolentos" são os que estudam à tarde, dos quais 40,5% relataram sonolência diurna excessiva.
Celular
Outras variáveis avaliaram o sono dos adolescentes, considerando aqueles que, além de estudarem, trabalham, e ainda os que usam ou não dispositivos eletrônicos à noite, antes de ir à cama. Entre os que precisam trabalhar, 63% afirmaram dormir menos de oito horas, porcentagem que cai para 53% se considerados aqueles que só estudam. Já dos que assumiram à pesquisa que usam celular antes de dormir, 56,3% se queixaram de dormir menos de oito horas.
Foi a necessidade de se manter sozinha que levou a garçonete Raynna de Oliveira, 21, a deixar os estudos em pleno 2º ano do ensino médio: trabalhando em dois locais diferentes, não sobrava disposição para as aulas vespertinas. "Eu dormia muito tarde e tinha que acordar muito cedo. Ia direto trabalhar, saía 12h e já às 13h precisava estar na escola, às vezes nem almoçava. Quando chegava lá, batia sono e cansaço", lamenta.
Com a sonolência, vieram a dificuldade de acompanhar os conteúdos e as notas baixas. "Eu chegava a dormir nas aulas, e tinha dia que eu nem aguentava ir. Minha professora notou, me chamou e perguntou se eu não poderia estudar à noite", relembra, afirmando que deve voltar a estudar, em outubro deste ano, num dos Centros de Educação de Jovens e Adultos (CEJA) da Capital.
Seja a necessidade de trabalhar, seja o vício em celular - conforme a pesquisa, os dois fatores aumentam a incidência da chamada SDE: sonolência diurna excessiva. "É a vontade de cochilar durante o dia. O adolescente já sofre biologicamente com a questão do sono, pela puberdade, e o uso do celular, o cansaço e a falta de prática de atividade física agravam isso", explica, indicando a consequência mais grave de todas: "a queda do rendimento acadêmico". "Além disso, adolescentes que não dormem suficientemente têm em maior risco para diabetes, obesidade, problemas psicológicos, abuso de drogas e álcool e sedentarismo", alerta o estudo.
Solução
Para o pesquisador, a solução ideal seria adiar o horário de início das aulas matutinas do ensino médio, para que começassem mais tarde, "prática já adotada no exterior e que potencializa o desempenho dos estudantes". Apesar de reconhecer que "tem difícil implantação, na prática", Felipe reforça a responsabilidade das escolas em agir sobre essa questão.
"Outra possível solução é conscientizar os adolescentes a terem hábitos noturnos mais saudáveis: diminuir o tempo de uso de celular e computador antes de dormir, incentivar a praticarem mais atividades físicas durante o dia, o que pode melhorar o sono. A escola é extremamente importante dentro desse processo, porque o adolescente passa muito tempo lá. É o cenário ideal para intervenções. Existem muitos hábitos sociais que ocorrem pela falta de informação. A ideia é que dentro da escola eles tenham acesso aos prejuízos à saúde de um sono de má qualidade", frisa.
O próximo passo da equipe do Laboratório de Sono e Ritmos Biológicos da UFC é analisar os dados para avaliar que tipos de intervenção são possíveis, como a educação em saúde para essa faixa etária da população.
Questionada sobre possíveis estímulos e ações para "acordar" os estudantes e melhorar o desempenho deles, como a possibilidade de alterar o horário das aulas matinais para mais de tarde, a Secretaria da Educação do Ceará (Seduc) respondeu, em nota, que "a instituição realiza estudos para tornar mais produtivo o período em que o aluno se encontra na escola". Mas para promover qualquer mudança, a Secretaria explica que "precisa se articular com instituições parceiras que colaboram no dia a dia da escola, como os municípios, na questão do transporte escolar, por exemplo".
A pasta também foi questionada se são realizadas atividades físicas nas escolas para que os estudantes despertem. A Seduc não respondeu especificamente ao questionamento e assegurou que "promove o Desenvolvimento de Competências Socioemocionais com o objetivo de desenvolver habilidades de convívio, autoestima, pensamento crítico e autogestão".
Estudantes do ensino médio da rede pública de Fortaleza dormem menos que o ideal, segundo pesquisa da UFC. Fatores ambientais, biológicos e comportamentais influenciam nos problemas do sono
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Horários
No Brasil, de modo geral, as aulas escolares começam às 7h tanto na rede pública como na rede privada. Em 2018, a Associação Brasileira do Sono (ABS) lançou um manifesto evidenciando os efeitos danosos à saúde e ao aprendizado dos adolescente devido à manutenção dos horários inadequados nas escolas.
Posicionamento
No dossiê há uma recomendação para a mudança desses horários. A Associação ressalta a necessidade de que as aulas não comecem antes das 8h30 para adolescentes entre 13 e 17 anos ou que estejam no Ensino Médio.
Internacional
O artigo referente à pesquisa
"Duração do sono e sonolência diurna em adolescentes do ensino médio da cidade de Fortaleza" foi aceito para publicação na revista Sleep Medicine, periódico científico oficial da Sociedade Mundial de Sono (World Sleep Society) e da Associação Pediátrica Internacional de Sono (International Pediatric Sleep Association.


Diário do Nordeste

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