segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Casas de sementes ajudam a preservar culturas agrícolas no interior do Ceará



Prática que funciona como uma espécie de caderneta de poupança do campo, os bancos de sementes ajudam a preservar as culturas agrícolas locais contra o uso de produtos químicos ou mudanças climáticas abruptas. Prestes a completar 82 anos, o agricultor Juvenal Januário Matos é um desses “guardiões de sementes” no Ceará.

Uma lei aprovada na Assembleia Legislativa do Ceará, em dezembro do ano passado, torna o Estado responsável por promover a criação de novos bancos comunitários de sementes.

No Crato, município da região do Cariri, onde mora com os filhos e a esposa, Juvenal cuida de um banco de sementes há 22 anos. O trabalho do agricultor é de resistência. Ainda com o céu escuro, ele caminha até a roça, onde conserva um estoque com uma variedade de aproximadamente 50 sementes crioulas. “Ela garante uma reprodução, resiste à estiagem e às pragas e é mais saudável para a gente”, defende Januário.

Só de milho, são seis amostras, mas a variedade vai além. Há exemplares de feijão, fava, arroz, gergelim, amendoim e até algumas frutas.

A ideia de criar o banco de sementes surgiu em 1986, quando participava do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Crato, mas, após muitas tentativas, o projeto do banco de semente só saiu do papel em 1997, quando plantou sozinho e conseguiu colher 200 kg de sementes de todas as variedades. No ano seguinte, a casa foi oficializada e batizada Casa de Sementes Senhor do Exército. “É o criador da natureza, o pai. O senhor que resolve. Estamos em batalha, a luta é nossa (dos agricultores), mas a vitória é por ele”, explica.

O agricultor recebe visitantes de todo o Brasil para repassar seus conhecimentos sobre bancos de sementes. No ano passado, Juvenal recebeu produtores do Maranhão, que pediram autorização para criar no estado um espaço semelhante. “Fiquei feliz em ajudar”.

Casa de sementes



Em um banco de sementes, as amostras ficam guardadas em um armazém, onde podem permanecer por meses, anos ou séculos, até serem “sacadas” para replantio em caso de culturas destruídas. O Brasil tem o quarto maior banco genético do mundo, que pertence à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), com cerca de 150 mil amostras.

No Ceará, segundo a Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Ceará (Fetraece), 122 casas de sementes surgiram nos últimos três anos.

Uma das casas é do agricultor Aureliano Soares, de 64 anos. Com um grupo de aproximadamente 50 agricultores, ele guarda sementes crioulas na Casa de Sementes Zé Noca, na comunidade de Aroeira, localizada a cerca de 18 km do centro de Quixeramobim, no Sertão do Ceará.

No estoque há cerca de mil grãos de feijão, arroz, gergelim e sementes nativas usadas no reflorestamento local. A maior parte, no entanto, é milho. São, pelo menos, 700 kg presentes em 11 variedades da cultura. “Nós temos o milho João Bento, o Vermelhão, o milho Adriano, que veio do Maciço do Baturité”, lista Aureliano.

A casa de sementes tem uma estrutura coletiva de empréstimos. “Quando um agricultor precisa da semente na época da chuva, ele pega uma garrafa de milho e depois devolve duas, que é para a semente estar se multiplicando ao longo do tempo”, explica. “A única coisa que nós exigimos do nosso sócio é que ele não trabalhe com nenhum tipo de produto químico. Só aceitamos sementes limpas”, ressalta o agricultor.

Nova lei
Para o secretário de Política Agrícola da Fetraece, José Francisco de Almeida, a lei aprovada em dezembro é importante para a economia local. “Na prática, nós vamos poder trabalhar e conseguir com mais facilidade o registro das sementes crioulas. Outros estados, como Bahia e Piauí, já possuem leis nesse sentido”.

A expectativa é que os pequenos produtores consigam comercializar as sementes crioulas no programa estadual Hora de Plantar e junto aos agricultores não atendidos pelo programa.

A lei já foi enviada ao governador Camilo Santana (PT) e aguarda sanção para começar a valer.


Por Antônio Rodrigues e Rodrigo Rodrigues, G1 CE

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