segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Sistema partidário vai mudar com Bolsonaro no poder


As eleições de outubro trouxeram vários desafios à sobrevivência dos 35 partidos do Brasil. Legendas derrotadas nas urnas correm o risco de fusão ou de serem incorporadas. Em março do ano que vem, também se abre a chamada "janela partidária", o prazo para mudar de sigla. O troca-troca costuma favorecer as agremiações vitoriosas. Já a posse de Jair Bolsonaro vai provocar uma intensa dança de cadeiras nos escalões do Executivo, com reflexos no Legislativo e no Judiciário. Em 2019, Congresso, governos estaduais e assembleias também vão ter rostos e vozes estreantes. Novos estilos de liderança política entram em cena e tendem a mudar as práticas e os discursos nas esferas de poder.

O comportamento do cidadão também está diferente, o que deve favorecer um tom de autocrítica pelos partidos e uma comunicação mais instantânea com suas bases. As redes sociais conectaram o brasileiro a um debate diário, com críticas e cobranças às autoridades, minuto a minuto. Brasília será pressionada com mais frequência a explicar suas ideias e a votar as reformas estruturais, necessárias para melhorar as perspectivas da gestão pública e da economia.

Está em jogo o futuro das regras das aposentadorias, dos salários, dos tributos cobrados dos contribuintes, além do encaminhamento de diversas propostas de soluções para os graves problemas do País, como o rombo nas contas públicas, o desemprego, a violência, a corrupção, as deficiências na Saúde e Educação, a falta de moradia, a degradação ambiental, entre outros.

A agenda da política de 2019 já começa a ser definida entre os analistas. O primeiro semestre deverá ser marcado pelos esforços do presidente eleito para criar uma base de apoio no Parlamento, a fim de conseguir aprovar seus projetos.

Cientista político Rodrigo Gallo: "Dois partidos têm um desafio maior: PT e PSDB, que buscaram construir uma hegemonia no nível federal. Essas siglas têm de entender seu novo papel dentro da nova configuração política do País com Bolsonaro"
O PSL, sigla de Bolsonaro, elegeu a segunda maior bancada de deputados federais, atrás do rival PT, mas tentará atrair aliados de outros partidos no primeiro trimestre, com a "janela partidária".

Dependendo do sucesso das articulações políticas ou do eventual desgaste de medidas consideradas impopulares, o segundo semestre do ano que vem pode ser dominado por uma antecipação dos cenários das eleições municipais de 2020.

Bolsonaro não esconde a intenção de transformar o seu PSL em uma força política hegemônica, com tamanho do MDB de Michel Temer ou do PT.

Nomes apoiados pelo chefe do governo federal costumam contar com recursos fartos para projetos ambiciosos, potenciais vitrines a uma pré-candidatura nos municípios.

Oposição

Para o cientista político e professor Rodrigo Gallo, da Escola de Sociologia e Política de São Paulo e da faculdade FMU, a nova configuração política do Brasil vai evoluir no ritmo dos números da popularidade do novo presidente e das reações dos seus apoiadores às mudanças implementadas por ele. As estratégias da oposição para reconquistar espaços e desgastar a imagem do adversário também vão definir o clima político em 2019.

"Com o crescimento dos partidos mais de direita, o maior desafio para o PT e o PSDB será ver como eles conseguem se reinventar para eventualmente vencer as eleições em 2020. Essa é a minha expectativa, mas ainda é cedo para afirmar de forma categórica sobre o que acontecerá", ponderou Gallo.

Negociações

O desempenho do futuro governo não dependerá só de Bolsonaro, mas também das decisões dos homens fortes que o cercam, como generais em ministérios importantes e o economista Paulo Guedes no comando da Economia.

Sem experiência política, o novo núcleo de poder no Palácio do Planalto terá de negociar com dirigentes de outros partidos, como o MDB de Michel Temer, e conquistá-los para votar a favor das matérias do novo governo no Congresso Nacional.

"Temos a sinalização que Bolsonaro vai tentar reinventar o presidencialismo de coalizão que temos no País. E esse será seu maior desafio", afirma o estrategista político Márcio Coimbra, da Universidade Mackenzie.

Bolsonaro tenta apresentar "uma imagem de ordem, mas pode ter dificuldades na interlocução com o Congresso", afirma o cientista político Geraldo Monteiro, coordenador do Centro Brasileiro de Estudos de Pesquisas sobre Democracia, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

A pressa para votar pontos da Reforma da Previdência ainda neste ano sinalizaria, segundo os analistas, a estratégia de blindar Bolsonaro, deixando para Temer o ônus de uma pauta impopular.

"É uma Reforma que provavelmente vai ser feita. A questão é saber o quanto o governo está disposto a negociar com a oposição e se expor publicamente para tornar a pauta mais aceitável para a população. Isso vai depender de como o começo do governo vai se efetivar, de como o governo vai conseguir criar maioria para aprovar a Reforma sem problemas", analisou Gallo.

Redes sociais

Não se mexe em time que está ganhando. A máxima do futebol será respeitada pelo palmeirense Bolsonaro ao entrar em campo no Palácio do Planalto. As redes sociais, que impulsionaram sua campanha, vão funcionar como uma espécie de "porta-voz" na estratégia de comunicação do futuro presidente. Se você costuma assistir às transmissões ("lives") do capitão na internet e se surpreender com a gigantesca audiência e repercussão de suas falas, essa forma de comunicação digital veio para ficar.

Na semana passada, Bolsonaro pediu ao vice-presidente eleito, general Hamilton Mourão (PRTB), para sondar a agência de publicidade Isobar, uma das duas que cuidam das mídias sociais do governo Michel Temer (MDB). "O foco é reforçar a comunicação digital, que é a mídia do Bolsonaro, que é a mídia do Trump (presidente dos EUA)", disse Mourão. Para ele, "aquele processo antigo de comunicação, via filmetes, propagandas tradicionais, será abandonado".

Partidos de pouco voto

Os partidos brasileiros só continuam como protagonistas no jogo político em 2019 se tiverem atingido um número mínimo de representantes eleitos em outubro. Das 35 siglas, 14 foram "reprovadas" nesse quesito, ou seja, não conseguiram vitórias suficientes para cumprir essa regra aprovada pela Reforma Política em 2017, conhecida tecnicamente como "cláusula de desempenho ou de barreira".

Na prática, a principal punição é perder dinheiro público do fundo para manutenção das atividades corriqueiras das agremiações. São essas legendas em situação de risco que interessam às siglas vitoriosos, como o PSL de Bolsonaro. Algumas agremiações já negociam o embarque em outras siglas por meio de fusão ou incorporação (leia mais sobre o assunto na pág. 6).

Siglas sob risco

Rede
Patriotas
PHS
Democracia Cristã
PCdoB
PCB
PCO
PMB
PMN
PPL
PRP
PRTB
PSTU
PTC


Fonte: Diário do Nordeste

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