quarta-feira, 2 de março de 2022

Sobrevivente dos campos de concentração para flagelados da seca no Ceará, Joaquim Barbosa morre aos 101 anos

 


Um sobrevivente dos campos de concentração instalados no Ceará durante a seca de 1932 morreu nesta terça-feira (1º) aos 101 anos no município de Senador Pompeu, interior do estado. Joaquim Barbosa e sua família estiveram no Campo do Patu e no Campo do Urubu, locais onde flagelados pela seca eram obrigados a permanecer pelas autoridades da época.

A prefeitura de Senador Pompeu lamentou o falecimento do agricultor e manifestou apoio aos amigos e familiares. "Neste momento de dor, a administração municipal se solidariza com os familiares e amigos, e expressa as mais sinceras condolências", diz a nota de pesar.

Os casarões que ainda existem do Sítio de Patu, onde funcionava o campo de concentração onde Joaquim esteve, está em processo de tombamento estadual.


Campos de concentração

Erguidos no Ceará em dois momentos distintos, em 1915 e 1932, os campos de concentração eram espaços de aprisionamento espalhados estrategicamente em rotas de migração no estado para evitar que os chamados "flagelados da seca" chegassem a Fortaleza, em busca de auxílio.

A história dos campos de concentração no Ceará origina-se em processos vividos na seca de 1877, quando um ciclo intenso de estiagem motivou grandes deslocamentos de retirantes do interior do estado para Fortaleza. Em 1915, temendo que a situação de 1877 se repetisse, o governado da época, coronel Benjamin Liberato Barroso, criou o primeiro campo de concentração do Ceará, em Fortaleza, no chamado Alagadiço, atualmente Bairro de São Gerardo.

Os campos eram acampamentos provisórios, por isso foram imediatamente desfeitos após a desocupação, relata o historiador Fred de Castro Neves. Somente em Senador Pompeu foram aproveitadas instalações de alvenaria dos prédios abandonados pelas empresas inglesas que iriam construir o Açude do Patu, conta ele. Isso explica a ausência de vestígios nos demais municípios. Os campos de 1932 foram encerrados em 1933.

Embora guardem marcas de momentos cruéis na vida de retirantes, estas áreas, ressaltam historiadores, apesar de serem chamadas de campos de concentração não podem ser associadas aos campos de extermínio que existiram na Alemanha, durante o regime nazista.

A semelhança, explica o historiador Airton de Farias, está atrelada à ideia de controle sobre uma determinada população. No mais, os campos de concentração do Ceará não tinham a finalidade de exterminar a população abrigada, apesar de as condições sanitárias desses locais configurarem riscos profundos aos retirantes.

“Os campos tinham uma função prática de controlar a população pobre, os flagelados, como eram chamados na época, as pessoas que vinham do interior para Fortaleza atrás de auxílio. As pessoas eram colocadas nesses campos, separados homens e mulheres”, explica ele.


Por G1 CE


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